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Segunda-feira, 20 de Julho de 2026

Política

Gilmar Mendes recua parcialmente após forte reação, mas mantém limites que dificultam impeachment de ministros do STF

Pressionado por Senado, juristas e opinião pública, ministro suspende apenas parte da própria liminar, preserva quórum elevado para abertura de processos e mantém influência direta sobre negociações da nova lei do impeachment.

Estadão Rondônia
Por Estadão Rondônia
Gilmar Mendes recua parcialmente após forte reação, mas mantém limites que dificultam impeachment de ministros do STF
Geraldo Magela / Agência Senado / Arquivo)
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Gilmar Mendes promoveu, nesta quarta-feira (10), um recuo parcial na decisão monocrática que havia alterado as regras para pedidos de impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). A suspensão ocorreu após intensa reação de parlamentares, juristas, entidades civis, setores da sociedade e até de ministros da própria Corte. Embora tenha restabelecido o direito de qualquer cidadão apresentar denúncia ao Senado, Gilmar manteve dispositivos que, na prática, tornam mais difícil a abertura de processos contra integrantes do STF.

Formalmente, o recuo atende a um pedido de reconsideração feito pelo Senado. Porém, o episódio também expôs a interferência do Judiciário sobre prerrogativas legislativas e revelou articulação direta entre o presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP), e o próprio Gilmar, em torno da tramitação da nova lei do impeachment — uma proposta que, coincidentemente, incorpora pontos defendidos na liminar do ministro.

Em 3 de dezembro, ao atender ação do partido Solidariedade, Gilmar deu uma liminar em caráter imediato restringindo a legitimidade para pedidos de impeachment à Procuradoria-Geral da República e aumentando o quórum para abertura de processos, de maioria simples para dois terços (54 votos). As mudanças provocaram forte reação, classificada por críticos como “blindagem aos ministros”, “usurpação de competência”, “interferência nas prerrogativas do Legislativo” e “decisão em causa própria”.

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Uma semana depois, sob pressão crescente, Gilmar recuou de maneira parcial: devolveu a legitimidade ampla à população, mas manteve o elevado quórum de dois terços e a vedação ao afastamento cautelar de ministros na fase inicial do processo, reforçando — segundo especialistas — o caráter protetivo da decisão original.


Pressão política e manutenção do controle institucional

Para o cientista político Ismael Almeida, o retrocesso parcial se deve ao “cerco político” que se formou. A expectativa do ministro era levar o tema ao plenário virtual nesta sexta-feira (12), mas a sessão foi suspensa.

A justificativa apresentada por Gilmar para o recuo aponta articulação com Alcolumbre: segundo ele, sua decisão teria impulsionado a tramitação do projeto de lei que atualiza as regras do impeachment no Senado, cabendo agora ao Legislativo dar continuidade à discussão. O argumento coincide com declarações públicas do ministro.

A movimentação recebeu diferentes interpretações no meio político. Parte dos parlamentares classificou o recuo como vitória da sociedade na defesa da separação dos Poderes; outros viram um movimento calculado para preservar instrumentos de controle sobre o STF. O senador Sergio Moro (União-PR) celebrou como “vitória da população”.

Mesmo restabelecendo a legitimidade para apresentação de denúncias, a decisão ainda inviabiliza, na prática, o avanço de pedidos contra ministros do STF, dado o quórum elevado exigido para a abertura de processos.


Projeto de nova Lei do Impeachment ganha força com apoio de Judiciário e Senado

A reação à liminar impulsionou negociações entre Alcolumbre e a cúpula do Judiciário em torno do PL 1.388/2023, que propõe substituir a Lei 1.079/1950. O texto foi elaborado por juristas sob coordenação do ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, e apresentado pelo ex-presidente do Senado Rodrigo Pacheco.

O projeto, que estava parado na Comissão de Constituição e Justiça, inclui trechos polêmicos: entre eles, a previsão de que ministros do STF não possam ser responsabilizados por suas interpretações da Constituição — tese alinhada à liminar de Gilmar.

Com a crise, o projeto ganhou novo fôlego. Críticos afirmam que a articulação tende a reduzir ainda mais a possibilidade de responsabilização de ministros; analistas avaliam que Gilmar busca inserir no texto final elementos de sua própria decisão.

Alcolumbre, embora tenha criticado a liminar, tem priorizado negociações internas sobre o projeto em vez de apoiar iniciativas que restabeleçam integralmente as regras clássicas da Lei do Impeachment.


Juristas apontam interferência do STF no Legislativo

Para a doutora em Direito Público Clarisse Andrade, a negociação direta entre Gilmar e o Senado reforça o caráter “político” assumido pelo Supremo. Ela avalia que, ao modular sua decisão, o ministro atuou como “legislador informal”, influenciando rumos e limites da nova lei.

O jurista Luiz Augusto Módolo classifica o recuo como “concessão pontual”, sem alterar o núcleo da blindagem. Segundo ele, a suspensão do trecho que concedia exclusividade à PGR atendeu mais ao incômodo interno na Corte sobre a concentração de poder em Gilmar do que a uma abertura democrática. “No essencial, permanece tudo igual”, afirma.


Quórum elevado deve permanecer como principal barreira

O constitucionalista Alessandro Chiarottino avalia que o recuo faz parte de uma estratégia. Para ele, o ponto decisivo — o quórum de dois terços para abertura de processos — mantém o STF protegido. “No cenário atual, esse quórum é praticamente inalcançável”, afirma.

A proposta preliminar discutida no Senado mantém restrições: permite que partidos, OAB, entidades de classe e iniciativas populares com 1,56 milhão de assinaturas apresentem pedidos, mas ainda representa uma limitação maior do que a atual legislação.

A exigência de 54 votos, preservada por Gilmar, aumentará significativamente o custo político de qualquer tentativa de responsabilização de ministros.


Disputa institucional continua

Juristas concordam que o episódio aprofunda a percepção de interferência do STF sobre o Legislativo e estabelece um precedente de negociação direta entre os Poderes sempre que houver tensão institucional.

Com o julgamento da liminar adiado para sessão presencial — possivelmente apenas em 2026 —, a disputa sobre as regras do impeachment permanece aberta. O desfecho dependerá da capacidade de mobilização do Senado e da força de articulação do próprio STF, que, segundo analistas, segue conduzindo o rumo das mudanças.

FONTE/CRÉDITOS: gazetadopovo
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