Vitélio Brustolin, professor da UFF e pesquisador de Harvard, avaliou ao Hora H o acordo provisório firmado entre os Estados Unidos e o Irã, classificando o documento como algo já estruturado para ser rompido.
Segundo o especialista, o memorando contém 14 pontos e prevê a negociação de um acordo final em até 60 dias, com uma cláusula adicional que permite a prorrogação do prazo caso as partes não cheguem a um consenso.
Acordo “feito para ser quebrado”
Para Brustolin, o documento representa, na prática, uma tentativa de acordo, e não um compromisso sólido.
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“O fato é que esse memorando é feito para ser quebrado”, afirmou o pesquisador.
Ele destacou que a manutenção do status quo é, estrategicamente, uma vitória para o Irã, uma vez que o Estreito de Ormuz já estava aberto antes dos ataques dos Estados Unidos e de Israel, e qualquer novo desarranjo nas negociações, segundo ele, pode afetar diretamente o fechamento do Estreito, mesmo sem envolvimento direto de Israel ou do Hezbollah nas tratativas.
Brustolin também ressaltou que o conflito sempre deveria ter sido centrado no programa nuclear iraniano, e não apenas no Estreito de Ormuz.
“A guerra era para ser sobre o programa nuclear do Irã”, disse.
Ele lembrou que, no G7, os líderes cobraram de Donald Trump que as negociações abrangessem também o programa de mísseis do Irã, o financiamento a grupos como Hezbollah, Hamas, Jihad Islâmica e Houthis, além do programa de drones iraniano.
Na avaliação do pesquisador, Trump está tentando fechar o acordo a qualquer custo por razões eleitorais internas, visando as eleições de novembro.
Netanyahu como principal alvo político
Questionado sobre as crescentes tensões entre os Estados Unidos e Israel, Brustolin apontou que Benjamin Netanyahu estaria priorizando seus interesses pessoais em detrimento dos interesses de Israel.
O pesquisador lembrou que Netanyahu enfrenta quatro acusações de corrupção, além de ser responsabilizado por não ter prevenido os atentados de 7 de outubro de 2023, e ainda é alvo de um mandado de prisão do Tribunal Penal Internacional.
Diante desse cenário, o especialista foi categórico ao afirmar que, caso o acordo não se cumpra, Netanyahu será o principal prejudicado politicamente.
“Quem deve pagar caso o acordo não se cumpra é o Netanyahu. O Trump precisa de alguém para culpar”, disse.
Brustolin acrescentou que nem Israel nem o Hezbollah participaram da negociação do memorando, e que o Hezbollah é historicamente conhecido por não respeitar resoluções da ONU.
Papel dos europeus e o G7
Sobre o papel dos aliados ocidentais no G7, Brustolin destacou que há negociações nos bastidores.
Diferentemente do encontro anterior, realizado no Canadá, em que os Estados Unidos se recusaram a reiterar apoio à soberania territorial da Ucrânia e a condenar abertamente a Rússia, desta vez houve uma declaração conjunta com condenação à Rússia.
Trump chegou a mencionar a possibilidade de reimposição de sanções sobre o petróleo russo.
O pesquisador apontou ainda que os países europeus, França e Reino Unido em particular, possuem mais navios caça-minas do que os Estados Unidos na região e poderiam contribuir para uma eventual operação de reabertura do Estreito de Ormuz, caso o Irã não cumpra sua parte no acordo.
Na avaliação de Brustolin, os europeus oferecem esse auxílio também porque, resolvida a questão do estreito, poderão pressionar Trump de forma mais eficaz pelo apoio à Ucrânia no conflito contra a Rússia.
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