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Durante o programa “Futebol em Contexto” da Trivela, o apresentador Nelson Coltro, junto ao colunista Tim Vickery, abordaram o estádio do Tottenham, que custou 1,2 bilhão de libras e é utilizado para shows, partidas da NFL e outros eventos, mantendo a grama natural, graças a um gramado retrátil que pode ser substituído em 25 minutos.
Esse modelo contrasta com o que se vê nas arenas multiúso do futebol brasileiro, onde o gramado sintético tornou-se comum para acomodar diversas atividades. Entretanto, Vickery destacou um aspecto negativo: o alto número de eventos que leva os torcedores a questionar se o estádio realmente ainda é seu lar.
Estádio do Tottenham: uma arena multiuso de 1,2 bilhão de libras
Inaugurado em abril de 2019, o estádio do Tottenham é o maior pertencente a um clube em Londres, exceto Wembley, que é uma instalação pública. Desde seu planejamento, focou em ser uma arena de entretenimento, não apenas um local para futebol. Desde novembro de 2024, a cantora Beyoncé realizou mais apresentações no local do que o número de vitórias do time na Premier League. A programação também inclui Taylor Swift, um contrato de dez anos com a NFL para dois jogos por temporada, além de lutas, rugby, uma pista de kart e um shopping.
Nelson Coltro, que acompanhou a inauguração após residir em Londres em 2019, comentou sobre a influência do estádio na vizinhança. “O estádio se localiza em um bairro de residências, com estruturas precárias, e é uma construção colossal. É o estádio mais impressionante que já vi. Assemelha-se a um Coliseu moderno”, relatou.
O sucesso econômico do modelo já despertou o interesse de clubes vizinhos. O Arsenal chegou a considerar transformar o Emirates em uma arena multiuso, mas, no momento, a ideia não parece ter muitos apoiadores.
Gramado retrátil do Tottenham e a provocação ao Brasil
O moderno Tottenham Hotspur Stadium. Foto: IMAGO / Action Plus
O que se destaca é o gramado. A primeira camada é de grama natural, enquanto a segunda é sintética. A troca do gramado leva 25 minutos, permitindo que a arena seja usada para shows sem comprometer o campo de futebol. Coltro lembrou que as arenas brasileiras, construídas nos últimos 10 ou 12 anos, também foram projetadas para o entretenimento, como o Nubank Park, o novo estádio do Atlético Mineiro e a Arena da Baixada, do Athletico Paranaense. A diferença crucial está no tipo de gramado que os jogadores utilizam.
“A questão não é simplesmente utilizar o estádio para entretenimento. O essencial é o gramado. Para mim, e sei que essa discussão é complicada no Brasil, pois envolve muito clubismo, futebol é jogado em gramado de verdade. Para mim, é um absurdo ter tantos gramados sintéticos no Brasil, o que também reflete um aspecto do nosso capitalismo. À medida que uma indústria cresce, torna-se difícil desmantelá-la. Há muito lobby envolvido, que se infiltra e complica ainda mais o processo. O Tottenham conseguiu implementar um modelo com gramado retrátil, que oferece tanto o gramado para shows quanto para futebol”, analisou.
Vickery, que visitou o estádio do Tottenham em duas ocasiões, compartilhou sua reação ao descobrir o sistema. “Estava no gramado e as pessoas me explicavam como funciona: ‘O que você está pisando agora pode ser removido e substituído’. Uau… Isso significa que, por um lado, é maravilhoso, pois se pode realizar shows sem causar danos ao gramado de futebol. Fantástico”, comentou.
Excesso de eventos e a falta de identificação da torcida
Entretanto, o jornalista inglês percebe um custo menos visível. “Creio que, psicologicamente, a torcida sente isso, pois o futebol é muito territorial. A sensação de que o espaço é nosso é fundamental para o torcedor”, explicou. Ele mencionou o Estudiantes, que inaugurou um estádio moderno em La Plata em 2003 e conquistou a Libertadores de 2009 jogando lá, mas sempre sonhou em retornar ao seu antigo campo. O Estudiantes efetivamente voltou e enfrentou o Flamengo em um estádio menor, recém-reformado, mas que os torcedores sentem como seu.
No caso do Tottenham, Vickery reconhece que a transição foi menos impactante, uma vez que o novo estádio foi construído ao lado do antigo White Hart Lane, sem mudança de bairro. Ele também notou que, recentemente, o clube buscava ser chamado apenas de Spurs, um nome que soava mais americano e desvinculado do bairro, mas que agora reverteu essa decisão.
O desafio, na opinião dele, é a quantidade de eventos. “É claro que, para financiar um estádio desse porte, é necessário realizar eventos, mas isso resulta em uma perda de identidade. Quando a torcida vai ao estádio, sente que é um espaço voltado para interesses corporativos, e isso prejudica um pouco. A realidade é que há tantos eventos que os torcedores se perguntam: será que este lugar ainda é nossa casa? Ou é apenas um espaço destinado a lucrar com a nossa paixão, por estarmos aqui, independentemente das condições climáticas?”, questionou.
Vickery também elucidou por que esse modelo não é a norma na Inglaterra. “O futebol é o principal negócio, pois gera uma grande receita, especialmente com a venda de direitos a nível global. Em termos estritos, não é necessário. No caso do Tottenham, construíram um estádio novo, grande e caro, portanto, é preciso criar eventos para garantir sua viabilidade”, explicou.
Ele, por fim, projetou um futuro não muito promissor para o clube. “Talvez, em 20 anos, com o Arsenal se destacando como o maior clube de Londres, o Tottenham precisará realizar shows diariamente apenas para equilibrar suas finanças e garantir a sustentabilidade. É uma visão bastante desalentadora”, concluiu.
Tottenham Hotspur Stadium recebeu jogo da NFL. Foto: IMAGO / Action Plus
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