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Terça-feira, 15 de Setembro de 2026

Política

Perito Criminal da PF em Vilhena é identificado como responsável por vazamento envolvendo Moraes

A origem de um dos episódios que provocou uma significativa crise no Supremo Tribunal Federal (STF) remonta a Rondônia.

Estadão Rondônia
Por Estadão Rondônia
Perito Criminal da PF em Vilhena é identificado como responsável por vazamento envolvendo Moraes
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De acordo com o depoimento da delegada da Polícia Federal (PF) Janaina Pereira Lima Palazzo, que está à frente do inquérito da Operação Compliance Zero, um perito criminal federal baseado em Vilhena, João Cláudio Nabas, é apontado como a fonte do vazamento de informações confidenciais do caso Banco Master para a mídia. Essa declaração foi feita em março e teve seu sigilo retirado recentemente pelo próprio STF.

João Nabas não é um profissional qualquer dentro da instituição. Com aproximadamente 20 anos de experiência na PF, ele ocupa a chefia do Núcleo de Tecnologia (NUTEC) da unidade de Vilhena desde 2009 e é amplamente reconhecido como um especialista em crimes financeiros — inclusive leciona sobre fraudes em investimentos em cursos promovidos pela PF. Essa expertise foi o que o levou a fazer parte, de forma remota a partir de Rondônia, da equipe responsável pela análise dos dados do caso Master.

Após a detenção de Daniel Vorcaro em 17 de novembro de 2025 e a apreensão de seu celular, a responsabilidade pela perícia das conversas e arquivos retirados do dispositivo, registrados no Laudo 4281/2025, coube a Nabas.

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A acusação começa aqui. Segundo o relato da delegada, no dia 5 de dezembro de 2025, Nabas enviou a ela, via WhatsApp, um arquivo em PDF sem cabeçalho e sem identificação de origem — um conjunto de prints retirados do celular de Vorcaro. O conteúdo incluía a totalidade de um contrato de serviços advocatícios entre Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes, e Vorcaro, além de supostas conversas entre o banqueiro e o ministro do STF.

Além disso, conforme relatado pela delegada, um áudio foi anexado. Nele, Nabas mencionava que conversava "há anos" com a jornalista Malu Gaspar, do jornal O Globo, a qual descreveu como sendo "uma pessoa muito boa e muito séria" e encorajou a delegada a contatá-la, fornecendo seu número. Palazzo diz ter recusado — "de maneira educada, mas firme" — a se comunicar com a repórter. Nabas teria insistido, e, diante de uma nova recusa, no mesmo dia, enviou um segundo PDF, também sem identificação, intitulado "Toffoli e esposa", que continha informações sobre o ministro Dias Toffoli e sua ex-companheira, incluindo dados sobre o resort Tayayá.

Na terça-feira seguinte, 9 de dezembro, a delegada relata que leu uma reportagem de Malu Gaspar em O Globo que continha "exatamente os dados compilados por João Nabas". Ela comunicou imediatamente sua chefia — o delegado Marcelo Botelho e a Superintendência da PF no Distrito Federal — sobre esta questão, reproduzindo os áudios. Com sua concordância, Nabas foi removido das investigações e teve todos os seus acessos aos dados confiscados cortados.

Meses mais tarde, em maio de 2026, Nabas se tornou alvo da 7ª fase da Compliance Zero e foi afastado da corporação. Em um pedido de busca autorizada pelo relator do caso, o ministro André Mendonça, a PF afirma que Nabas "de fato criou os documentos relacionados aos magistrados" e teria "direcionado seus esforços em sentido contrário ao escopo das investigações", procurando "elementos desabonadores de ministros" para divulgá-los.

Um aspecto é crucial, pois estabelece limites às responsabilidades. Os juristas consultados sobre o caso convergem em dois aspectos. O primeiro: se confirmado, a ação do perito pode, pelo menos em teoria, configurar o crime de violação de sigilo funcional (art. 325 do Código Penal), com pena de até seis anos e perda do cargo — e há quem acredite em uma hipótese mais grave, relacionada ao embaraço à investigação de organização criminosa, punível com até dez anos.

O segundo aspecto refere-se à jornalista. Os especialistas são unânimes ao afirmar que Malu Gaspar não cometeu crime. Como destaca o jurista Pedro Serrano, autoridades públicas não podem divulgar dados sigilosos, mas o jornalista que os recebe está protegido pelo exercício da profissão e pelo sigilo constitucional da fonte — publicar informações de interesse público é um direito e até um dever da imprensa. O próprio STF, ao autorizar as diligências contra o perito, enfatizou que isso não implica "qualquer direcionamento contra jornalistas ou veículos de imprensa".

A situação do perito de Vilhena é um componente central do enigma que dividiu o STF. Foi esse vazamento, e os documentos dele decorrentes, que passaram a ser citados em lados opostos da crise: o ministro Gilmar Mendes os utiliza como exemplo dos "vazamentos seletivos" que, segundo ele, contaminaram o processo; a defesa de Moraes os caracteriza como um "dossiê" elaborado de forma irregular para atingi-lo. Os arquivos "Moraes.pdf" e "Toffoli e esposa.pdf", surgidos de uma análise realizada remotamente a partir de Rondônia, tornaram-se, portanto, munição na batalha interna da mais alta corte do país.

Há uma ironia geográfica no ocorrido: uma das mais significativas crises institucionais do Supremo, travada em Brasília entre seus ministros, teve um de seus gatilhos em uma sala de perícia em Vilhena, no interior de Rondônia. O que Nabas fez, os motivos que o levaram a agir assim, e se foi por ordem de alguém — se de fato houve essa ordem — é o que a Polícia Federal atualmente busca esclarecer, investigando um de seus próprios integrantes.

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