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Quinta-feira, 09 de Julho de 2026

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1 ano depois do tarifaço ao Brasil, situação com EUA segue indefinida

Com possível novo tarifaço à espreita, governo e setor privado se mobilizam para tentar poupar país o máximo possível

Estadão Rondônia
Por Estadão Rondônia
1 ano depois do tarifaço ao Brasil, situação com EUA segue indefinida
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O dia 9 de julho de 2025 marcou um ponto de inflexão na relação comercial entre o Brasil e os Estados Unidos.

Naquela data, há um ano, o presidente norte-americano Donald Trump anunciou que aplicaria uma tarifa de 50% sobre todas as importações brasileiras, alegando que isso seria “necessário para retificar as graves injustiças do atual regime”.

Entre citações ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e seu julgamento pelos atentados de 8 de janeiro, Trump falou em uma “caça às bruxas” e “ataques insidiosos do Brasil contra as eleições livres e os direitos fundamentais de liberdade de expressão dos americanos”.

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O presidente norte-americano ainda se direcionou ao STF (Supremo Tribunal Federal), dizendo que a corte teria emitido “centenas de ordens de censura SECRETAS e ILEGAIS a plataformas de mídias sociais dos EUA”.

No decreto assinado mais tarde, Trump buscou justificar sua ordem executiva por uma “emergência nacional” em razão das políticas e ações “incomuns” e “extraordinárias” do governo brasileiro que, segundo o republicano, prejudicam empresas norte-americanas, os direitos de liberdade de expressão dos cidadãos dos EUA e a política externa e a economia do país, de modo geral.

Mas, ao entrar em vigor, o tarifaço poupou 44,6% da pauta exportadora do Brasil aos EUA, segundo cálculo do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.

Entre itens que ficariam com uma alíquota de 10%, estavam petróleo, suco de laranja, aviões e suas partes, além de celulose, considerados estratégicos, de díficil substituição e de potencial inflacionário.

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Promessa de campanha

Desde a campanha presidencial, Trump enfatizava em seus comícios como “amava” a palavra “tarifas”. A promessa eleitoral do republicano fazia parte de uma estratégia para fortalecer a economia norte-americana em duas pontas:

  • Favorecer a produção de manufaturados no país;
  • Reduzir o déficit da balança comercial dos EUA.
  • Trump argumentava que o país viu sua indústria ruir, passando a depender dos importados de todo o mundo. Nesse processo, afirma que os EUA deixaram de ser um país exportador para comprar mais do que vender.

    Em 2024, o déficit comercial dos EUA foi de US$ 918,4 bilhões, uma alta de US$ 133,5 bilhões – ou 17% – ante 2023, segundo os dados do BEA (Departamento de Análise Econômica) e do Departamento do Censo dos EUA. Já em 2025, o resultado foi marginalmente melhor: déficit de US$ 901,5 bilhões.

    Após retornar à Casa Branca, Trump solicitou uma série de estudos para avaliar o que chamava de desequilíbrio comercial e relações injustas entre os EUA e seus parceiros comerciais. Desde o começo, o Brasil esteve na mira da gestão republicana, num primeiro momento por conta de barreiras aplicadas pelo país no comércio de etanol.

    O começo de tudo

    Chega então 2 de abril, data batizada pelo presidente norte-americano como “Dia da Libertação”. Os países foram atingidos pelas chamadas “tarifas recíprocas”.

    Na ocasião, a alíquota reservada ao Brasil foi de 10%.

    Tarifaço ao Brasil

    Com o anúncio da alíquota de 50%, o comércio entre as partes retraiu e uma tensão política começou a se construir ao redor do imbróglio comercial, à medida que não se formavam canais efetivos de comunicação entre os dois países.

    E com a aplicação da alíquota de 50% em agosto, veio também a politização do debate do tarifaço. Ao incluir em seu discurso o ataque ao Supremo, Trump muniu tanto oposição quanto situação.

    O filho “03” do ex-presidente Jair Bolsonaro, Eduardo, que está nos EUA desde o começo do ano buscando articulação com a direita estrangeira para apoiar o pai, disse que o tarifaço veio como consequência às ações do ministro Alexandre de Moraes. Ao lado do jornalista Paulo Figueiredo, afirmaram que as tarifas foram discutidas em reuniões que eles tiveram com autoridades do governo norte-americano.

    Já o governo Lula embarcou em um discurso pela soberania nacional, defendendo as instituições e a indústria do país. A popularidade do presidente da República, que vinha em queda, ganhou fôlego após o petista antagonizar com os Estados Unidos.

    Porém, para responder ao tarifaço, articulou-se uma “separação entre Igreja e Estado”. As negociações buscavam enfatizar argumentos técnicos, tentando despolitizar a discussão para evitar atrito ideológico com o governo Trump.

    Com apoio do setor privado, o diálogo foi encabeçado pelo vice-presidente e então ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin (PSB).

    O empresariado teve maior abertura com suas contrapartes norte-americanas, e até acesso à Casa Branca, como no caso do empresário Joesley Batista, do grupo J&F.

    Contudo, penava a avançar a conversa entre os governos via canais de alto nível. A conversa entre os presidentes também parecia, até então, mais distante ainda.

    Enquanto isso, o governo anunciou uma série de medidas – como linhas de crédito e abate de impostos – para apoiar os exportadores que tinham nos EUA uma boa clientela a suportarem as dificuldades do período.

    Abraço, química e virada na maré

    Quando Lula foi aos Estados Unidos em setembro para participar da Assembleia Geral da ONU (Organização das Nações Unidas), não havia sequer sinalização de encontro com seu par norte-americano.

    Foi nos corredores da ONU em Nova York onde os dois se encontraram e o diálogo começou, por um acaso, com um abraço.

    “Nós não tivemos muito tempo para falar aqui, foram tipo, 20 segundos, mas conversamos, tivemos uma boa conversa e combinamos de nos encontrar na semana que vem, se for do seu interesse. Ele parecia um homem muito legal, na verdade, ele gostava de mim, eu gostava dele. E eu só faço negócios com pessoas de quem gosto”, afirmou Trump em seu discurso à Assembleia Geral.

    “Tivemos ali uma química excelente e isso foi um bom sinal.”

    Dali em diante os dois tiveram reuniões presenciais e trocaram telefonemas, tratando desde a questão comercial até a articulação entre os dois países para combater o crime organizado.

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    Alívio do tarifaço

    No dia 14 de novembro, Trump derrubou as tarifas recíprocas aplicadas no dia 2 de abril para uma série de produtos agrícolas comprados pelos EUA. A medida veio em meio aos reflexos do tarifaço nos preços das prateleiras nos supermercados norte-americanos.

    Mais tarde, em 20 de novembro, o presidente dos EUA assinou uma ordem executiva que eliminou a tarifa extra de 40% aplicada contra parte dos produtos agrícolas brasileiros, com validade retroativa a 13 de novembro.

    De acordo com o Itamaraty, mais de 200 produtos brasileiros tiveram a cobrança adicional suspensa. A decisão contemplou produtos como carne bovina, café, frutas, e também recursos naturais, como petróleo.

    Já em fevereiro de 2026, veio o movimento que abalou a estratégia comercial de Trump: a Suprema Corte dos Estados Unidos decidiu o presidente violou a lei federal ao impor unilateralmente tarifas abrangentes em todo o mundo, derrubando o tarifaço.

    Não obstante, as exportações brasileiras ao país chegaram a evoluir desde então.

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    2026: Um novo tarifaço

    Lula e Trump voltaram a se reunir em maio deste ano, em Washington. Além da questão comercial, colocaram em pauta a cooperação internacional no combate ao crime organizado e a exploração de minerais críticos e estratégicos. Na ocasião, Trump chamou Lula de “presidente dinâmico” e disse que a reunião foi muito boa.

    Em todas essas frentes, porém, a situação com os Estados Unidos segue indefinida.

    Após a reunião, o Departamento de Estado norte-americano classificou o Comando Vermelho e o PCC (Primeiro Comando da Capital) como “Terroristas Globais Especialmente Designados”, contrariando as propostas de combate ao crime de maneira integrada do governo brasileiro.

    Sobre as terras raras, um documento enviado pelo Departamento de Estado para um acordo em minerais críticos errou o nome do Brasil, tratando-o como “país X” e “Equador”, num movimento que foi visto pelo governo brasileiro como falta de vontade em buscar uma parceria de interesse mútuo.

    Não suficiente, o governo Trump busca agora tentar retomar o tarifaço.

    No começo de junho, o USTR (Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos) propôs a imposição de novas tarifas de 25% sobre todas as importações do Brasil no âmbito da Seção 301 da Lei de Comércio norte-americana – ferramenta de política comercial que permite aos EUA investigarem e retaliarem outras nações contra práticas comerciais consideradas injustas. A investigação caminhava desde o anúncio do tarifaço de 50%.

    O USTR determinou que políticas do governo brasileiro sobre comércio digital, tarifas preferenciais, combate à corrupção, processamento de patentes e pirataria, etanol e desmatamento ilegal geram insegurança jurídica e competição desleal aos players dos EUA.

    Na noite seguinte, propôs a imposição de tarifas adicionais sobre produtos do Brasil e de outras 59 economias que teriam se omitido ao tomar medidas contra o comércio de mercadorias provenientes de trabalho forçado.

    O governo se mobilizou para contestar as alegações dos EUA e articulou, junto do setor privado, uma resposta aos processos movidos pelo USTR. Em paralelo, publicou uma portaria ampliando o atendimento do Plano Brasil Soberano, incluindo empresas com impacto a partir de 1% no faturamento bruto devido ao tarifaço ou à guerra no Oriente Médio.

    Porém, de um lado, a diplomacia vê negociações travadas pela falta de clareza das demandas específicas dos EUA sobre o Brasil. Enquanto o processo avança, o governo tem buscado manter um canal de diálogo com representantes do USTR.

    Em paralelo, o setor privado apostou em embarcar para Washington e ficar cara a cara com as autoridades norte-americanas.

    Entre segunda-feira (6) e terça-feira (7), o USTR realizou audiências para ouvir argumentos sobre a investigação da Seção 301.

    O agronegócio marcou presença no primeiro dia de discussões, conduzindo falas de tom mais técnico e poucas críticas ao Brasil, com uma narrativa profunda e até uma defesa por parte dos pares norte-americanos sinalizando menor tensão entre o setor privado, apurou o CNN Agro.

    Paulo Pupo, superintendente da Abimci (Associação Brasileira da Indústria de Madeira Processada Mecanicamente), que acompanhou os painéis do primeiro dia, relatou que as discussões tiveram um “nível técnico mais elevado e menos perguntas capciosas”, o que torna o diálogo “mais seguro junto à autoridade americana”.

    Participantes e porta-vozes de entidades que participarão da audiência relataram ao CNN Money que a defesa ao comércio exterior do Brasil passou por, além de contestar a validade da investigação, uma ênfase à complementaridade que há entre os negócios brasileiros e norte-americanos e a longa tradição que embasa o relacionamento entres exportadores daqui e compradores de lá.

    Após debaterem com autoridades norte-americanas a investigação comercial dos Estados Unidos contra o Brasil, interlocutores do setor privado acreditam na possibilidade de que a lista de itens isentos de um possível novo tarifaço seja expandida.

    Contudo, reconhecem que é quase inevitável que as alíquotas sejam aplicadas a parte dos produtos brasileiros.

    A decisão final do USTR está prevista para o dia 15 de julho. A ver.

    Abertura comercial reduz impacto de tarifas de Trump no Brasil? Entenda

    FONTE/CRÉDITOS: joaonakamura
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