Das 197 candidaturas a governador oficialmente registradas no TSE (Tribunal Superior Eleitoral), apenas 20 são mencionadas por todas as ferramentas de inteligência artificial analisadas em uma pesquisa do ITS Rio (Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio), obtida com exclusividade pela CNN. A quantidade corresponde a 10% do total.
O estudo examinou respostas do ChatGPT, Gemini, Meta AI, Grok, DeepSeek, Perplexity e Claude. Os nomes citados pelas IAs foram comparados, um a um, com a lista do TSE.
Em seguida, os pesquisadores verificaram quais candidatos foram mencionados por todas.
Leia Mais
-
TSE barra IA três dias antes das eleições e proíbe sugestão de candidatos
-
TSE cria conselho para monitorar desinformação e uso de IA nas eleições
-
Partidos assinam acordo com TSE por uso responsável de IA nas eleições
“Nós não conseguimos identificar, só olhando para as respostas, quais foram os critérios que levaram um candidato a aparecer e outros não. Então, além do desafio de entender por que uma candidatura específica não apareceu, chama atenção que o acesso à informação eleitoral depende da ferramenta que o eleitor escolhe”, explica Karina Santos, coordenadora da pesquisa.
Veja em quantas ferramentas cada candidatura foi citada:
Os candidatos não mencionados por nenhuma ferramenta são Pedro Brito (Novo), que disputa no Ceará, e Expedito Mendonça (PCO), do Distrito Federal. O estudo não cita o nome de outros candidatos, inclusive dos que são abordados por todas as IAs.
No caso da disputa à Presidência da República, dos 13 candidatos, só quatro são citadas por todas as sete IAs — o que corresponde a 31% do total.
“Essa seleção já pode produzir algum nível de visibilidade diferente entre os candidatos. Se uma ferramenta apresenta cinco nomes e deixa outros de fora, ela pode estar ajudando a definir quais entram mais no campo de visão daquele eleitor. Isso não significa, necessariamente, que exista a intenção de favorecer alguém, mas o efeito pode ser relevante”, diz a coordenadora da pesquisa.
Ainda segundo Karina, a situação fica ainda mais sensível quando essa seleção vem acompanhada de um ranqueamento entre os nomes, com base em uma ordem que não é a alfabética ou a da lista oficial apresentada pelo TSE.
Ranqueamento de candidatos
O estudo considera como ranqueamento não só as listas ordenadas de candidatos, mas também os casos nos quais existe algum tipo de preferência, seja visual, com a resposta destacando uma candidatura em relação às demais; de omissão, com a resposta citando candidatos sem contexto que justifique a escolha; ou a sugestão do voto em si, quando se diz que um nome é melhor do que outro.
Pelo menos uma destas situações apareceu em 86% das respostas analisadas. Neste caso, o percentual é o mesmo em respostas sobre candidatos à Presidência e aos governos estaduais.
Recomendação de candidatos
A pesquisa também revela que, em 20% das respostas analisadas, as IAs recomendaram candidatos à Presidência e aos governos estaduais de acordo com o perfil do eleitor, apesar do TSE proibir a prática.
A Perplexity acumula quase dois terços dos registros. Em 31 das 35 respostas analisadas, a ferramenta finalizou o texto recomendando um candidato — frequentemente em primeira pessoa e, conforme o levantamento, em alguns casos, sob um título que anuncia a recomendação.
ChatGPT, Claude e Gemini não recomendaram candidatos. A pesquisa mostra que estas ferramentas se recusaram à ação e ofereceram critérios gerais, sem associar nomes a perfis.
“Esse resultado mostra a dificuldade de se transformar uma regra jurídica em um comportamento técnico, que possa ser controlado de maneira uniforme. […] A pesquisa tem o objetivo de jogar luz para este debate e apresentar os desafios, inclusive para monitoramento e fiscalização das IAs”, explica Karina Santos.
Prompts utilizados
A seleção de prompts foi feita com base em preocupações eleitorais comuns entre cidadãos, segundo levamentos de opinião recentes relacionadas à escolha das candidaturas.
A partir das temáticas, como avaliação de propostas e confiabilidade das urnas eletrônicas, foram elaborados um conjunto de prompts que simulam perguntas que eleitores poderiam fazer aos sistemas de inteligência artificial.
Segundo o instituto, todos os prompts utilizados passaram por um processo de testes e refinamento, com o objetivo de refletir o uso cotidiano das ferramentas de IA. Veja:
Dados desatualizados
A pesquisa também identificou que 12% das respostas sobre candidatos à Presidência e aos governos estaduais têm algum tipo de dado desatualizado. Os maiores índices são do Claude e da Meta AI, que trazem informações defasadas em 23% dos questionamentos.
Os erros mais comuns relacionados a candidaturas que circularam no período pré-campanha, mas não chegaram a, de fato, serem confirmadas. Há também registros de candidatos apresentados em cargos que já deixaram.
“Isso pode acontecer, em parte, porque o modelo de linguagem não consulta uma única base para responder toda vez que uma informação muda”, explica a coordenadora da pesquisa.
“Também existe uma questão técnica e econômica importante. Manter os sistemas de IA continuamente atualizados, consultando fontes de alta qualidade e em tempo real, exige uma infraestrutura que varia entre as plataformas. O desafio é que a gente precisa trabalhar para manter as informações atualizadas, porque, numa eleição, essa atualização também significa confiabilidade”, finaliza.
O que dizem as IAs citadas?
Em nota, a Perplexity disse que a ferramenta foi criada “para fornecer às pessoas respostas citadas e com links de diversas fontes, para que elas possam acessar diretamente as reportagens originais e chegar às suas próprias conclusões”.
A OpenAI, dona do ChatGPT, disse que a plataforma foi desenvolvida para ser objetiva por padrão, preservando a autonomia do usuário, inclusive em conversas sobre política.
“No contexto eleitoral, buscamos oferecer informações relevantes, como fontes oficiais do TSE, além de dados públicos sobre os candidatos e suas propostas. Embora relevante, a pesquisa não captura a totalidade das melhorias que fizemos em nossos sistemas, e suas escolhas metodológicas limitam parte de suas conclusões. O indicador de ‘ranqueamento’, por exemplo, inclui respostas meramente informativas, como quais candidatos estão concorrendo e pesquisas de intenção de voto. Ao reunir esses conteúdos no mesmo indicador, informação útil ao eleitor se confunde com potencial favorecimento”, diz.
Gemini, Meta AI, Grok, DeepSeek e Claude também foram contatados pela CNN, mas ainda não retornaram. O espaço segue aberto.
Sobre a pesquisa
A 5ª rodada do levantamento Boca de IA é conduzida pelo ITS Rio em parceria com o MPF (Ministério Público Federal). A coleta de respostas foi feita entre os dias 17 e 21 de agosto, logo depois da data final para o registro oficial de candidaturas junto à Justiça Eleitoral.
Confira a pesquisa:
Quem são os candidatos à Presidência da República em 2026
Comentários: