Raphinha está em um momento onde parece que joga em outra esfera. Em sua atual temporada com o Barcelona, ele já contabiliza 14 gols e três assistências em apenas oito jogos, assumiu a braçadeira de capitão e se destacou como a principal figura de um time que ainda não conheceu a derrota.
Os números conquistados são impressionantes, mas o contexto amplifica ainda mais a façanha: este é o melhor começo de temporada de um atleta na história do Barcelona, superando até mesmo os inícios de Lionel Messi, e Raphinha já havia sido o primeiro a marcar nas quatro primeiras rodadas de LaLiga.
Assim, surge a questão que cruza a fronteira entre o Barcelona e a Seleção: será que o jogador que brilha na Catalunha poderá replicar esse desempenho com a camisa do Brasil?
De desconhecido a titular na Copa do Mundo
É importante lembrar que Raphinha já viveu um caminho diferente. Quando foi convocado pela primeira vez para a seleção brasileira, após se destacar no Leeds, rapidamente conquistou espaço com Tite, apresentando um futebol que, por vezes, era mais convincente do que o que mostrava no Barcelona. Agora, aos 29 anos, e após uma temporada em 2024/25 que o colocou entre os melhores do mundo, ele inicia um novo ciclo sob o comando de Ancelotti.
A subida de Raphinha na Seleção foi meteórica. Depois de sua primeira convocação em 2021 e uma estreia marcante, onde deu duas assistências contra a Venezuela, ele logo se destacou ao marcar duas vezes contra o Uruguai. Em questão de meses, o atacante que era uma novidade se tornou titular.
Entretanto, sua participação na Copa do Mundo não atendeu às expectativas criadas. Embora tenha sido titular e participado de todos os cinco jogos do Brasil no Qatar, Raphinha terminou o torneio sem gols ou assistências. Apesar de não ter contribuído diretamente, sua participação defensiva e envolvimento foram significativos.
Raphinha na Copa do Mundo de 2022 (Foto: IMAGO / Agencia-MexSport)
A impressão deixada no torneio foi a de que Raphinha poderia ter sido mais decisivo, o que explica a pressão que passou a enfrentar nos anos seguintes: ele ganhou espaço na Seleção antes de se firmar como um dos melhores do mundo no clube, mas faltava transformar essa relevância em atuações impactantes em jogos decisivos. Essa situação se tornou mais evidente quando sua trajetória no Barcelona começou a modificar-se.
Nos primeiros anos em Barcelona, Raphinha mostrou-se um jogador importante, mas com desempenho irregular. Ele se transferiu do Leeds em 2022 e terminou sua primeira temporada com 10 gols e 12 assistências em todas as competições, repetindo os 10 gols na 2023/24. Eram números respeitáveis, mas aquém do status que sua contratação prometia. Ao mesmo tempo, na Seleção, continuou a receber apoio e a ter seus momentos de brilho.
A verdadeira transformação ocorreu em 2024/25, quando Hansi Flick explorou suas habilidades de uma forma mais intensa. Raphinha alcançou 34 gols e 25 assistências em 57 jogos naquela temporada, sendo eleito o melhor jogador da LaLiga e figurando entre os principais candidatos ao prêmio da Bola de Ouro.
O atacante, que antes era visto como um ponta promissor, mas inconstante, passou a ser reconhecido como uma estrela mundial.
A mudança de Raphinha no Barcelona e as dificuldades da Seleção
A transformação que Raphinha experimentou não se limitou apenas aos números. Flick proporcionou a ele uma liberdade que se tornou central em seu estilo de jogo. Raphinha deixou de ser um jogador fixo nas extremidades e começou a explorar zonas interiores, atacar a área e participar da construção de jogadas. A temporada 2024/25 demonstrou que ele era muito mais do que um ponta que recebia a bola aberta.
Com a chegada da temporada 2026/27, essa mudança atingiu um novo patamar. Sem Robert Lewandowski e sem a contratação de Julián Alvarez, Flick viu em Raphinha uma solução para o centro do ataque. O brasileiro começou a atuar como falso 9, com a liberdade de sair da posição, interagir com Lamine Yamal e atacar a área de diferentes ângulos. Isso trouxe Raphinha ainda mais perto das zonas decisivas.
Os números refletem essa alteração: até agora, Raphinha soma 14 gols e três assistências em oito jogos nesta temporada, com 12 gols em sete jogos na LaLiga e dois na Champions, participando diretamente de mais de dois gols por jogo. Embora seja um ritmo que dificilmente se manterá ao longo da temporada, é uma evidência forte de que o jogador alcançou um novo nível.
Raphinha em jogo do Barcelona (Foto: IMAGO / ZUMA Press Wire)
O desafio para a Seleção é que ela não replica automaticamente o ambiente do Barcelona. A equipe brasileira carece da mesma estrutura ofensiva, não conta com jogadores como Yamal e Pedri, e não possui os esquemas de Flick em torno de Raphinha, além de não ter tanta posse de bola em áreas avançadas. Embora o brasileiro possa ser posicionado da mesma forma no esquema tático, isso não garante que ele terá as mesmas oportunidades para atacar a meta ou se movimentar internamente.
Esse foi um dos pontos mencionados pelo próprio Raphinha antes da Copa de 2026. Ao ser questionado sobre o contraste entre seu desempenho no Barcelona e na Seleção, ele reconheceu a pressão. "Eu já consegui entregar muito pela Seleção, sim. Obviamente que não podemos ser hipócritas e falar que foi igual ao clube", declarou na ocasião.
O atacante compreende que os contextos são distintos, mas também reconhece sua responsabilidade individual. Agora, existe um fator novo que ele não tinha quando começou sua trajetória com Tite: Raphinha já sabe ser protagonista em um time de elite.
Ancelotti teve pouco tempo para descobrir o melhor Raphinha
O tempo de Raphinha sob o comando de Ancelotti também deve ser visto com cautela. O italiano assumiu a Seleção em junho de 2025 e desde o início demonstrou confiança no jogador. Raphinha foi convocado em sua primeira lista e tratado como uma peça importante no novo projeto. Contudo, essa continuidade foi frequentemente interrompida.
O atacante perdeu a convocação de outubro de 2025 devido a uma lesão, e Ancelotti admitiu que a questão física estava afetando as convocações. Em março de 2026, Raphinha foi desconvocado novamente após uma lesão muscular na coxa direita durante um amistoso contra a França. A CBF confirmou a lesão por exames.
Esse problema se repetiu na própria Copa do Mundo. Raphinha sentiu dores na coxa direita durante o jogo contra o Haiti, precisou deixar o campo ainda no primeiro tempo e ficou ausente da partida seguinte. Ao retornar contra a Noruega, ele estava apenas como alternativa no banco e Ancelotti admitiu que o jogador ainda não estava 100%. O atacante não teve oportunidades de jogar na eliminação do Brasil nas oitavas de final.
Esses episódios alteram a interpretação do rendimento de Raphinha sob Ancelotti. Em cerca de um ano e meio, dificilmente houve um período em que o treinador e o jogador puderam desenvolver juntos uma função ofensiva com o brasileiro em plena forma.
Raphinha não perdeu espaço por falta de importância, mas em muitos momentos não estava disponível ou não estava em condições físicas ideais. E isso ocorreu justamente quando o jogador estava passando pela maior transformação tática de sua carreira no Barcelona.
Mudanças na relação com a torcida
A relação de Raphinha com a torcida brasileira também evoluiu. Quando surgiu na Seleção, foi uma grata surpresa. Vindo do Leeds, não carregava a pressão de outros grandes nomes e rapidamente conquistou a simpatia pelo seu estilo enérgico e personalidade. Em 2022, chegou à Copa como titular.
Um episódio que ilustra essa relação ocorreu durante uma entrevista a Romário, antes do clássico contra a Argentina em março de 2025. Raphinha declarou que daria "porrada neles", tanto dentro quanto fora de campo, se necessário para defender o Brasil. A declaração ganhou enorme repercussão, especialmente após a Argentina vencer o jogo por 4 a 1.
Raphinha é titular da seleção brasileira com Ancelotti (Foto: Harry Langer/DeFodi Images via Imago)
Este episódio é significativo não apenas pela frase, mas pelo que revela sobre a imagem de Raphinha naquele momento. Ele queria ser visto como um jogador comprometido com a Seleção, alguém que assumisse a responsabilidade. Atualmente, a situação é diferente. Raphinha não precisa mais provar que pertence à elite do futebol.
A temporada 2024/25 já solidificou isso, e o início de 2026/27 elevou ainda mais esse argumento. O desafio agora é fazer com que a camisa da Seleção retorne a proporcionar a mesma sensação. O Brasil inicia um novo ciclo após uma Copa decepcionante e com uma série de mudanças. Ancelotti decidiu manter Raphinha como um dos pilares da equipe para os amistosos contra Austrália e Índia, mesmo começando uma reformulação e convocando nove jogadores que não haviam participado do Mundial.
O técnico continua a ver no atacante uma peça fundamental para a reestruturação. Além disso, há uma chance adicional: o Brasil não precisa transformar Raphinha em uma cópia do jogador do Barcelona, mas sim identificar quais características de seu jogo podem ser adaptadas à Seleção.
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