Muitas vezes as pessoas se surpreendem quando falo que curto bastante as Datas Fifa. Espero que tudo isso fique mais claro e compreensível depois da notícia de sexta-feira, quando a imprensa inglesa revelou que o Manchester City será declarado culpado de uma série de irregularidades financeiras durante um período de vários anos.
Por enquanto se sabe pouco sobre os detalhes. Mas se sabe muito sobre a dimensão do desastre. É enorme. Como consertar? Tem como corrigir uma sensação que vai ter no mundo todo de que a gente estava perdendo nosso tempo assistindo à conquista de títulos ganhos de uma forma injusta?
O que acontece agora com outros times que, com todo direito, se sentem injustiçados? Desconfio que o imbroglio todo vai acabar sendo uma farra para os advogados e um trauma para os torcedores.
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Acredito que podemos expressar tudo isso de uma forma matemática. O tamanho do desastre é proporcional ao tamanho dos donos dos clubes, não somente o Manchester City mas os outros envolvidos também. Eles têm condições de contratar os melhores advogados, tanto para os recursos quanto para os pedidos de compensação — e aí o caso se alastra e a sombra em cima do futebol cresce.
É o preço quando o futebol se transforma num produto da indústria de entretenimento global. Os clubes viram brinquedos de bilionários ou agentes de “soft power” de estados. Deixam de ser clubes no sentido mais autêntico da palavra para virar criadores de conteúdo – e quando o diretor do documentário e o advogado se tornam mais importantes que o centroavante, temos um problema.
Data Fifa é respiro necessário no meio do atual futebol
Até chegar a Data Fifa e podermos, temporariamente, esquecer disso e respirar, focando no confronto entre time A contra time B. E, na busca de representar o seu povo, tem uma pureza na coisa que — insisto — fica bem evidente no esforço dos jogadores na seleção brasileira no seu giro atual.
Muitas pessoas ficaram agressivamente zangadas comigo semana passada quando argumentei que os sacrifícios dos atletas do Brasil dificilmente seriam contemplados e aceitos por jogadores de uma seleção da Europa. Uma seleção europeia fazendo a viagem épica para Austrália e Índia, somente para disputar amistosos — garanto que aconteceriam muitas ausências, jogadores alegando lesões e tal.
O problema, nos olhos de muitos, vem com a palavra “sacrifício“. Tipo: é um absurdo ver isso como um sacrifício, viajando e ficando hospedado em condições ótimas, enquanto a maioria da população tem que acordar cedo e enfrentar transporte precário e salários pífios, que é o verdadeiro sacrifício.
Trata-se de populismo barato. Uma coisa tem pouco a ver com a outra, justamente porque estamos falando de sacrifícios diferentes.
Cada profissão tem o seu ônus e seu bônus. No caso de jogadores da elite brasileira, conseguiram driblar os grandes desafios cotidianos da maioria com a combinação insuperável de talento, trabalho e sorte. Se colocaram em um mundo em que tem outros tipos de sacrifício.
Para um jogador da elite, uma viagem até a Austrália, num contexto de um calendário tão cheio, é, sim, um sacrifício. Cansa, e o cansaço acumulado é uma ameaça para o nível de desempenho.
E o jogador, especialmente quando está defendendo a seleção, vai ser julgado de acordo com o seu desempenho em campo. Este é um aspecto da profissão que a grande maioria não tem a menor noção: como é ter o seu trabalho e até o seu próprio valor como ser humano, julgado por milhões de pessoas, muitas das quais não têm ferramentas para tal e estão procurando descontar a sua amargura em cima dos atletas.
Pode ter dinheiro, os melhores hotéis, viagens da primeira classe. Ainda assim, é necessário ter uma estrutura mental forte para lidar com uma responsabilidade assim. E essa responsabilidade aumenta bastante quando o jogador está defendendo a sua seleção numa Copa do Mundo. Para estar lá, tem que ser parte do processo, jogar os amistosos, viajar para a Austrália e tal.
Tem grande recompensa financeira nisso aí? Não tem. O clube fica feliz? Nem um pouco. Ia de longe preferir o jogador fingindo uma lesão e se poupando da viagem. Mas lá estão, porque estão dispostos a pagar o preço de ir atrás da glória em 2030, na pureza dos seus sonhos da infância.
A Data Fifa, mesmo no início do ciclo, faz parte do processo. E por isso eu curto.
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