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Sexta-feira, 18 de Setembro de 2026

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Por que o teste de apego virou febre nas redes — e o que ele não explica

Nas redes, apego ansioso virou atalho para explicar relações, mas psicólogo alerta que os padrões de apego são mais complexos que os testes sugerem

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Por Estadão Rondônia
Por que o teste de apego virou febre nas redes — e o que ele não explica
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Nas redes sociais, uma expressão ganhou força nos últimos meses para descrever um relacionamento que perdeu a intimidade: “fase colega de quarto”. É quando o casal deixa de se tocar e conversar sobre o dia a dia, e passa a dividir apenas a logística da casa: contas, compras e a louça da pia, além do tédio.

Para tentar entender essa “crise de relacionamentos”, muitos tiktokers foram buscar, no final da década de 1950, uma teoria de desenvolvimento infantil e sobrevivência biológica que acabou se transformando em um guia de conselhos amorosos: a Teoria do Apego.

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Usada quase 70 anos depois, a ferramenta popular de autoconhecimento parte de conceitos de um desdobramento da teoria original chamado Apego Adulto, criado pelos pesquisadores Cindy Hazan e Phillip Shaver. Desse campo, vieram o vocabulário, as dicas de namoro e os termos “ansioso” e “evitativo”.

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Na cabeça dos criadores do conteúdo, o raciocínio funciona como uma engenharia reversa. Se um namorado some do WhatsApp e a proximidade esfria, ele recebe um rótulo do Apego Adulto: “Ele está agindo como um evitativo”. Mas a explicação, segundo a teoria original de John Bowlby, seria esta: o sistema de apego dele foi moldado na infância por pais distantes.

O problema é que a teoria do psiquiatra britânico descreve como o vínculo entre bebês e cuidadores molda expectativas sobre relacionamentos futuros. Ou seja, é um modelo sobre a infância, não um diagnóstico de comportamento amoroso adulto do século 21.

As pessoas podem mudar o seu estilo de apego?

homem-sentado-sozinho-em-estação-do-metrôRelações significativas funcionam como estações — capazes de diluir o padrão de apego original ao longo do caminho, sem apagá-lo por completo • Magnific

Autor do livro “Teoria do Apego: Fundamentos, Pesquisas e Implicações Clínicas”, o psicólogo e pós-doutor em psiquiatria Cristiano Nabuco afirma que o interesse crescente pelo tema é bem-vindo: funciona como mais um insumo para as pessoas desenvolverem autoconsciência sobre o próprio comportamento.

Falando à CNN Brasil, Nabuco explica que o problema começa no que se entende por estilo de apego. Isso porque temos uma tendência a comparar o comportamento da pessoa a uma caricatura: o sujeito frio e calculista, o cientista isolado, o juiz que não conversa com ninguém. “Na verdade, não é isso, isso é o que aparece do padrão de apego”, pontua.

Ou seja, há uma arquitetura de pensamento por trás disso. É uma matriz que faz o indivíduo agir de determinada forma. Assim, o comportamento “evitativo”, por exemplo, é consequência, não a causa. Por isso, um teste que só classifica atitudes das pessoas dificilmente alcança o que importa.

Indagado se as pessoas podem mudar seu estilo de apego, Nabuco recorre a Bowlby, para quem o estilo de apego vai do berço à cova. “Eu, pessoalmente, após 40 anos de trabalho em clínica, diria que você não muda, é muito difícil”, pondera Nabuco.

No entanto, A própria teoria prevê que, ao longo da vida, a gente encontre pessoas que desafiem esse estilo. Um evitativo que se relaciona com alguém seguro será cobrado a se conectar e falar do que sente. São experiências que Bowlby comparava a estações de trem: diluem a característica original — de uma forma até mais adaptável e mais funcional —, mas sem apagá-la.

O rótulo do apego é autoconhecimento ou só uma desculpa para não mudar?

mulher-olhando-no-esplehoEntender o próprio padrão de apego pode ser ponto de partida para mudança — ou só um rótulo a mais • ArthurHiden/Magnific

O “boom” da teoria do apego nas redes sociais trouxe consigo uma discussão muito forte: o rótulo serve como ferramenta de autoconhecimento ou só mais uma desculpa para não mudar? Segundo Nabuco, ele “serve como um ponto de partida para que o indivíduo entenda a maneira como ele funciona” — não como um veredito.

Para explicar essa maneira de funcionar, Nabuco recorre ao conceito do psicanalista norte-americano Daniel Stern de “experiências-de-estar-com”, que descreve os padrões construídos nas relações com outras pessoas. É a partir deles que podemos entender como reagimos à proximidade, ao afastamento e à intimidade.

Para Nabuco, o rótulo até pode virar desculpa — ele reconhece que isso acontece —, mas vê aí muito mais uma explicação. Como esses modelos funcionam de forma inconsciente, a grande vantagem de conhecer o próprio padrão não está no rótulo em si, mas em tirar essas reações do piloto automático e trazê-las para a consciência.

Esse processo, segundo ele, não muda necessariamente o estilo de apego — o “padrão raiz”, como ele chama, tende a persistir. O que pode mudar é a maneira de reagir construída em torno dele. Ao perceber essas reações e começar a questioná-las, a pessoa abre espaço para novas formas de se relacionar.

Para quem passou pelo processo, e reconheceu em si um padrão inseguro, Nabuco sugere três questões simples. Você se sente bem nas relações com outras pessoas? Tem facilidade para depender emocionalmente de alguém, falando das próprias fraquezas? E aprendeu, ao longo da vida, que autonomia e distanciamento eram formas importantes de sobrevivência?

“Essas trocas são trocas-chave, vamos dizer assim, que servem muito para fazer com que a nossa percepção exista”, conclui Nabuco.

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FONTE/CRÉDITOS: jorgemarin
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